o problema está no começo

eu não gosto das letras maiúsculas. deixei-as de lado para sempre. e não me fazem falta, isso eu digo com tranquilidade. toda letra maiúscula é pedante por natureza. elas se acham mais importantes que as outras, como se tamanho fosse certificado de nobreza. mal sabem que são apenas quebra-molas no fluxo da leitura. não gosto de letras maiúsculas, não tem jeito. consequentemente, tenho pouco apreço por nomes próprios. e antes que você venha falar sobre o belo significado de seu nome, ou a história de sua família, não leve isso como uma ofensa pessoal. o problema é que nomes próprios já começam com muita pretensão.

pensando no final

Escrevo essas palavras para falar sobre o ponto final. Não sobre o ponto que está logo a esquerda, mas sim sobre aquele que vem, de fato, por último – não se preocupe, em breve você o lerá. Serão necessários dezesseis outros pontos para se contar a história do meu ponto final, aquele que terminará tudo, a última coisa que escreverei. Eu, honestamente, tenho medo dele agora, pois o que resta após o ponto final? O verdadeiro ponto final. Eu posso sentir ele chegando, já o enxergo no horizonte da criação. Quando eu comecei, eu tinha uma ideia de como seria a história do meu último ponto. Eu tinha algo a dizer, algo a ser poetizado. Um plano. Mas o fato curioso é que o ponto final não existe ou existia lá no início. Ele era apenas luzes a piscar em minha cabeça, um nada abstrato apenas aguardando a natureza pragmática do nascer. De fato, o ponto final só aparecerá quando tudo tiver terminado. No entanto, quando eu de fato alcançar o meu último ponto, será que ele será tão importante assim? O que eu quero dizer é: para contar essa história, serão necessárias duzentas e trinta e três palavras. Será que o meu ponto final é mais importante que qualquer uma dessas palavras? Sinto o fim se aproximando. Não vai demorar muito agora. É uma pena, não consigo pensar em um belo final. Merda.

a exposição

– aqui está a arte pura.

 

o pano escorreu pela obra, sendo, enfim, revelada. o silêncio se deu, pois nem aplausos o artista queria, afinal, a arte era pura.

 

Josefina, senhora de cabelos azulados, coluna curvada pelo peso do tempo, abriu o programa do museu e tentou ler do que se tratava a exposição. a senhora apertou os olhos, criando ainda mais curvinhas em sua pele, e as palavras ganharam o foco necessário. leu três vezes o programa, não entendeu coisa com coisa. Confusa, ela se aproximou do ouvido de Gertrudes, sua melhor amiga, e suspirou bem baixinho, com vergonha de que outros a escutassem.

 

– ele falou arte pulha?

 

– não, arte pura.

 

– ah, achei que ele tinha falado arte pulha.

 

– não. ele falou pura.

 

depois de um tempo em silêncio, Josefina se aproximou do ouvido de Gertrudes e respondeu.

 

– que artista pulha, viu, miga.

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